Raimunda e seus resquícios

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Ela completava uns 60 anos. Trabalhou a vida inteira pra sustentar seus filhos. A pobreza fazia trilha na vida de cada um. A luta era mais que diária. Dona Raimunda, senhora simples e sábia, encontrava-se numa cadeira de cabalanço a espera de seu filhote. Aquele que nunca fizera questão de nada, que sempre abaixara a cabeça para tudo, mas que agora viajava pelo Brasil a procura de um futuro.
Viu seu filho entrando pelo porta, e disparou seus braços, fazendo ninho ao seu passarinho. Ele voltou.
Cabisbaixo o garoto entrava, seus olhos nunca estiveram tão confusos, uma mistura de felicidade e preocupação.
Falaram de saudades, de amor, de lembranças. Até que o assunto triste chegou. Era sempre resquícios. Sempre chegava esse assunto.
Não era sobre doença, se bem que é um mal grande. O filho adotado de dona Raimunda, disse:
– A pobreza nunca me incomodou, mas, sabe? Me entristece ver a situação de vocês. Não fico triste quando saio por aí sem dinheiro pra pagar e as pessoas pagam pra mim. Mas fico abalado quando vejo tudo que vocês passaram e passam. A pobreza me incomoda no próximo, a senhora me entende? Parece um ciclo.
Dona Ray, como gostava de ser chamada, olha para a janela com seus olhos cheios de lágrimas e dispara suas palavras:
– Me entristece também, meu filho. Sei o que passa. Sei suas preocupações. Espero que isso seja diferente para você.
Ela faz uma pausa, abaixa a cabeça e começa uma história:
– Quando eu era pequena, eu estudava e todo dia tocava o sinal da merenda e todas as crianças iam para o pátio comprar picolé, eu e minha colega ficávamos olhando os outros comerem. Com fome e sem dinheiro, decidiamos sempre brincar de bolinha de gude e o tempo ia passando, quando voltava pra casa ainda tinha que trabalhar e depois acender fogo para fazer a comida. Tinha vezes que meu pai me dava um dinheiro, mas não dava pra nada. Com um tempo guardei um dinheirinho. E advinha? comprei uma sandália. Lembro bem desse dia. Fui até o mercadinho e comprei a sandália, ela era muito linda. Cheguei, experimentei, e ficou pequena no meu pé. Mas a felicidade era tanta de ter uma daquelas que eu não me importei.

Eles se abraçam, fazendo sentido real da felicidade.

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